Dalia e Eva

28_Dalia e Eva+ TATÁ, GEFFINHO, THAMARA e DAISA

Quando resolvemos ficar juntas, nunca tivemos oposição da família nem de amigos. Aqui no bairro todos nos conhecem e sabem que somos gays, na escola, no trabalho, nossa vida é bem tranquila. O único preconceito que a gente sofreu, por incrível que pareça, foi quando fomos dar entrada no pedido de casamento, em 2013. Ali, sim, houve preconceito, o juiz negou nosso pedido, tivemos que entrar com recurso, um mandato de segurança. O processo levou um ano até conseguirmos autorização para casar, sendo que já estávamos juntas há 18 anos.

O preconceito que eu sofri a minha vida inteira foi o de cor. Esse chega primeiro, porque a cor aparece antes da orientação sexual.

Nossa primeira filha chegou com cinco anos. Um tempo depois, chegou a segunda, com 12. Agora estão chegando mais dois, nossos sobrinhos que ficaram órfãos de mãe, e a família que antes era só de duas pessoas, hoje está com seis.

Nós nos casamos no civil e na igreja no mesmo ato. Somos católicas, nossas filhas fizeram a primeira comunhão este ano, mas resolvemos casar numa igreja evangélica, a Igreja Cristã Contemporânea, dos pastores Marcos Gladstone e Fábio Inácio, que também são casados, têm dois meninos e são bem engajados. Fomos informadas de que o nosso foi o primeiro casamento gay no civil e no religioso ao mesmo tempo.

Os direitos das famílias homoafetivas estão caminhando muito devagar, mas estão caminhando. Hoje é possível casar, adotar em conjunto, colocar sua mulher ou marido no plano de saúde, na previdência privada, fazer uma conta corrente conjunta, um seguro de vida. É claro que a lei ainda tem muito que melhorar, mas com a bancada que a gente tem lá… Eu não chamo de bancada evangélica, chamo de bancada retardada. Com aquela bancada, não vamos avançar, e na última eleição, para meu desespero, eles aumentaram. O Legislativo está quase virando um Estado islâmico com esse pessoal de cabecinha fechada, mas como nós somos uma realidade, eles estão com problemas!

O maior medo deles não são os casamentos, são as adoções. Eles se incomodam é com as crianças dos lares gays, porque elas vão se tornar adultos que sabem respeitar o diferente, o direito de todos numa sociedade; o padrão de comportamento vai começar a mudar. Minhas filhas defendem tranquilamente as famílias gays, não só porque elas são parte de uma, como também porque conhecem outras famílias. A Thamara passou por uma situação na escola recentemente: a professora ia explicar sobre reprodução humana e teve a infelicidade de falar das famílias homoafetivas. Como ela me acompanha em palestras, conhece o assunto, falou: “Professora, realmente, duas mulheres, dois homens não podem ter filhos, mas eles merecem respeito. As minhas mães merecem respeito. Respeite a minha família e as das amigas das minhas mães. Eles não podem gerar, mas podem inseminar e podem adotar”. A turma inteira aplaudiu a garota, quer dizer, eles estão aprendendo.

Dalia Tayguara (advogada) e Eva Andrade (auxiliar de produção), juntas desde 1995.