Vlad e Roberto

Hoje em dia é menos difícil para as pessoas assumirem sua homossexualidade. Antes havia uma questão subjetiva muito complicada, independentemente de como a sociedade, os amigos e a família reagiriam. Pelo menos para mim foi assim, eu imaginava que as pessoas iam reagir muito mal. Hoje percebo que os gays têm mais facilidade de lidar com isso, com esse tipo de autocobrança, de cumprir um papel, de casar, ter filhos, todo esse rito social. Estamos descobrindo que há vários outros papéis. Antes não víamos isso, mesmo quando as condições reais não eram tão opressoras quanto imaginávamos. Não estou dizendo que hoje não existam, objetivamente, condições opressoras, é claro que existem, mas agora as pessoas são mais capazes de enxergar quando não são. Naquela época era mais difícil porque já imaginávamos o pior, criávamos mil fantasmas na cabeça: “o que as pessoas vão falar? Como é que sua família vai reagir?”.

O drama estava na minha cabeça, era interno. Não conseguia imaginar qual papel iria cumprir na família, frente aos amigos, sendo gay. Porque só tinha como referência aqueles papéis pré-fabricados, estereotipados, dos programas de humor na TV, tipo Os Trapalhões. Era tudo tratado como piada, o personagem gay era mostrado de forma bizarra, como escracho da sociedade. O que eu poderia pensar que viria a ser? Não sabia qual seria o meu papel, como as pessoas iam me encarar. Conseguir imaginar como as pessoas te veem é muito importante porque nós somos animais sociais, a gente precisa disso, e eu estava tentando me enquadrar socialmente. Hoje existem muito mais referências na mídia, com diversos estilos de vida que uma pessoa gay, como qualquer outra pessoa, pode seguir.

Lembro que certa vez (isso foi em meados dos anos 80) minha mãe estava comentando com meu pai sobre aids. Ninguém sabia nada sobre o que era aquilo, e ela falou de “câncer gay”. As informações eram muito truncadas. Eu estava começando minha vida sexual e fiquei apavorado: “o que é isso? Um câncer que só dá em gay? Será que eu vou pegar câncer?”.

A comunidade gay poderia ter aprendido, por seu próprio histórico, a ser mais tolerante com a diversidade. Não querer ficar enquadrando todo mundo, tipo “Ah, esse cara é um gay enrustido”, “esse é um bi enrustido”, “esse é um hetero enrustido”. E não dá mais para ficar defendendo uma letra ou outra, tipo agora tem mais uma letra para entrar no LGBT… Z… P… Talvez devêssemos questionar a necessidade de ter mais uma letra para representar alguém. Mas sei que esse debate é supercomplicado, porque alguém vai dizer: “Essas pessoas foram oprimidas e isso é uma maneira de você contrabalançar essa opressão”. Então você tem uma letrinha na sigla que funciona um pouco como essa ideia de cotas. Já que há um histórico de exclusão, de desvantagem, então é preciso equilibrar de alguma maneira. Sempre fui mais a favor da gente transcender isso.

Vladimir Menezes Vieira (professor universitário) e Roberto Moschen Junior (gerente de logística), juntos desde 2013.